SESUR9M - Escolhas Europeias para 2010

Da Thinkfn

Por João Dinis de Sousa Finbolsa.com (http://www.finbolsa.com) Escrito em 16 de Dezembro de 2009

Este artigo não pretende fazer uma selecção de acções europeias, mas sim apresentar um conjunto de dados que poderão ajudar o leitor a fazê-la. Decidi focar-me em três mercados de países desenvolvidos da Zona Euro, estáveis, e que não têm os problemas dos países do Sul ou do Leste europeu: a França, a Alemanha, e a Bélgica. Se o leitor planeia estar fortemente investido em acções no ano 2010, proponho-lhe que abandone o mercado português, e que não se meta no espanhol, grego, ou italiano. São países com desequilíbrios graves, que poderão repercutir-se nas Bolsas (e isso até poderá acontecer no curto prazo, embora não seja certo). Os mercados americano e inglês envolvem, neste momento, grande risco cambial (já que estão a ser impressos dólares e libras à doida). Por isso, os mercados acima parecem escolhas naturais para investidores portugueses.

Na tabela abaixo estão seleccionadas empresas dos índices Cac 40, Dax 30, e Bel 20, após rejeitar as que desceram mais do que o índice respectivo nos últimos 24 meses. Como a crise brutal que atravessamos se repercutiu nas Bolsas sobretudo depois de Dezembro de 2007, as empresas que superaram os índices nesse período estão a mostrar resiliência e força durante uma das piores crises deste século, revelando que têm melhor gestão, melhores marcas, ou quaisquer outros factores positivos intrínsecos. Foram também excluídas empresas financeiras, a maioria das de automóveis, e empresas com prejuízos avultados. A tabela apresenta os dados necessários para se aplicar o Sistema de Investimento SESUR9M.

QuadroSESUR9M01.png


As colunas marcadas a azul, à esquerda, contêm dados que servem ao cálculo dos rácios mostrados nas colunas marcadas a verde. Na coluna laranja estão as cotações de 10 de Dezembro de 2009. A partir desta tabela, o leitor poderá seleccionar as acções baseado nos itens seguintes.

IncVendas (9M2009) – Isto representa o quanto as Vendas (ou Facturação) da empresa variaram em % nos primeiros 9 meses deste ano em relação aos homólogos do ano anterior. Quanto mais alto este valor for melhor, e se for positivo ainda melhor. Empresas que estão a subir a facturação nesta recessão têm manifesta força, e é provável que continuem nesse bom caminho nos próximos anos.

CBOLCapitalização Bolsista – muito alta poderá indicar maior risco, principalmente se não for uma empresa gigante (como as telecoms, eléctricas, petrolíferas, e gasíferas).

EV/Ebitda – é o rácio entre o Enterprise Value (EV) e o Ebitda (cash flow operacional). O EV está calculado como a soma da Capitalização (CBOL) e do Endividamento Líquido, sem o acrescento dos Interesses Minoritários. Valores mais baixos do rácio são mais atractivos.

PER – rácio preço / lucro da acção, mais baixo é mais atractivo.

Gross Dividend Yield – rendimento do dividendo da acção, antes de impostos, em %, mais alto é mais atractivo.

Nos três últimos rácios, o “mais atractivo” deve ser interpretado com algum cuidado, pois uma acção que apresente estes valores muito atractivos pode ter algum problema intrínseco que já levou o mercado a preçá-las por baixo, e esse problema poderá fazê-la descer mais. Por exemplo, é curioso notar que as três grandes telecoms (France Telecom, Deutsche Telekom e Belgacom) têm os seus rácios muito atractivos, particularmente os dividendos; isso poderá indicar que o mercado antecipa que elas têm fraco potencial de crescimento. Mas talvez não seja má ideia comprar uma delas, mesmo assim, pois estão a pagar bons dividendos e são seguras.

Alguns exemplos. Para começar, com tantas para escolher, é bom não escolher nenhuma com as Vendas a descer mais de 3% este ano. A LVMH parece interessante, melhor que a L’Oreal: ambas têm as Vendas a descer pouco, e o PER e EV/Ebitda da LVMH são mais atractivos.

A Fresenius MC subiu as Vendas 4% e está com PER e EV/Ebitda bastante atractivos, parece boa aposta.

A Pernod-Ricard, a Essilor, e a AB Inbev, estão com subidas de vendas nos 8-9%, óptimas para os tempos que correm; no entanto, os EV/Ebitda de 13-14 nas duas primeiras, e de 23 na terceira parecem caros demais.

Será uma boa ideia diversificar pelos três mercados, e por sectores. Também será uma boa ideia olhar também para o andamento técnico das cotações e rejeitar as que estiverem a descer nos últimos poucos meses ou semanas, mesmo que os indicadores da tabela cima estejam bons. Claro está que poderá também ampliar este estudo para mais mercados europeus, aqui só estão três apenas porque mais dariam muito mais trabalho!

Note que o IncVendas(9M2009) é um indicador crucial. Como os rácios das colunas da direita estão calculados em função dos dados de balanço anuais de 2008 (veja as colunas marcadas a azul), a situação da empresa já pode ter-se alterado muito, e para pior, numa conjuntura tão má como a que vivemos. Assim, o IncVendas nos primeiros 9 meses deste ano fornece uma espécie de “certificação” aos outros rácios: se for positivo ou muito ligeiramente negativo ele sugere que os outros rácios tenderão a melhorar, ou pelo menos a não se alterar muito, quando estiverem apuradas as contas do ano 2009 completo (já que a tendência expressa nos primeiros 9 meses é uma boa aproximação para a do ano todo).

A análise das empresas com estes indicadores e investimento neste momento (fins de Dezembro) poderá antecipar-se a algum “Efeito Janeiro” que poderá acontecer em 2010, e além disso, antecipar-se às press releases sobre os resultados anuais, que só chegarão em Janeiro ou depois. É certo que o muitos dos agentes do smart money já conhecem os resultados trimestrais e já agiram sobre as cotações neste momento; no entanto, muitos outros não acompanharam as empresas todas ao trimestre, e além disso há muito money além do smart.

Este método SESUR9M é relativamente seguro, conservador. Ele aposta na qualidade das situações económicas das empresas. Ele tem hipóteses de bater os principais índices (em Portugal, bateu o PSI 20 durante todos os 6 anos mais recentes, incluindo 2008 e 2009). No entanto, é natural que acções fortemente cíclicas como as mineiras batam uma carteira destas se houver recuperação económica forte. Uma carteira destas é, além disso, segura contra a hipótese de hiper-inflacção.

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