O que a gestão de fundos NÃO é

Da Thinkfn
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Há um conjunto de ideias enraizadas no senso comum, sobre a actividade de Gestão de Fundos de Acções, que simplesmente não correspondem à verdade, ou pelo menos não correspondem ao que as Sociedades Gestoras de Fundos têm como ideia será “Gerir Fundos”. Este e outros artigos abordarão essas ideias Erróneas.

O que aqui está explicado aplica-se aos Fundos de Acções clássicos (a grande maioria, portanto), e não aos Hedge Funds ou fundos de retorno absoluto.


O Gestor de Fundos tem como objectivo pegar no dinheiro investido no fundo e tentar fazer mais dinheiro, ou pelo menos tentar não o perder.

É a PRINCIPAL ideia errada sobre Fundos de Acções. Praticamente NENHUM Gestor de Fundos de acções acha ter como missão “Tentar fazer mais dinheiro”, ou “Tentar não o perder”. Não, virtualmente TODOS os Gestores de Fundos consideram que, quando subscreve fundos de acções, o que quer é um fundo investido em acções, ou seja, ele sente que possui um mandato para estar investido em acções, quer ache que elas vão subir ou descer. O único objectivo que julgam ter é o de bater um dado Índice de referência, e acessoriamente, bater a concorrência (sendo que é adquirido que se bater o Índice, já bate a maior parte da concorrência).

Ou seja, o Gestor de Fundos manterá uma exposição longa ao mercado MESMO que ache que este terá uma queda a Curto Prazo. Quanto muito, tenta minimizar os efeitos dessa queda fazendo alguma rotação sectorial ou diminuindo (geralmente pouco) a exposição do fundo, e aumentando a liquidez. De facto em muitos casos existe até na política do fundo ou por imposição legal, uma percentagem MÍNIMA de investimento.


O Gestor de Fundos, se tiver uma boa ideia ou mesmo uma quase-certeza, tentará concentrar uma % elevada do fundo nessa ideia, maximizando o retorno do fundo.

Não. Os fundos têm regras muito rígidas acerca da sua diversificação, controladas pela CMVM. Assim, um fundo de acções não pode possuir mais de 10% do fundo num só emitente, nem pode possuir mais de 40% do fundo em posições que ultrapassem os 5% (por emitente). Esta regra, ao servir para proteger o investidor de potenciais erros do Gestor, também lhe limita fortemente o retorno potencial. Por exemplo, se o Gestor tivesse a CERTEZA de uma dada OPA, mesmo assim só a poderia aproveitar com 10% do fundo ...(para maior detalhe sobre todos os limites, consultar Decreto-Lei n.º 276/94, de 2 de Novembro)

Mais, esta regra garante que o Gestor, se PT estiver a subir desalmadamente, acabará sempre para perder para o PSI20. Isto porque no PSI20 esse papel pesam mais de 10%, e ele só pode ter no máximo 10% do fundo num papel. Aliás, isto cria a situação estranha de o principal Indice de referência do nosso mercado NÃO cumprir as normas que se exigem de qualquer fundo de acções, ao nível da diversificação ...


O Gestor de Fundos, se achar que um determinado papel possui uma probabilidade enorme de cair, tenderá a ter 0% do fundo nesse papel.

Errado, já que a tendência fortíssima para a Indexação (como forma de desresponsabilizar a Gestão de Fundos), leva a que qualquer papel que pese muito no Índice de referência, fará sempre parte de TODOS os fundos disponíveis no mercado. Ou seja, seria necessário que TODOS os gestores de fundos achassem que nenhum desses papeis iria cair, o que é impossível, para a frase ser verdadeira. Quem queira verificar esta afirmação, só tem que ver a composição dos fundos (publicada mensalmente) e ver se algum fundo de acções nacionais não tem PT, EDP e BCP. Igualmente, podem verificar se algum fundo europeu não tem NOK, DT, FTE ...


Para o Gestor de Fundos, o mais importante é a performance.

Apesar de o brio profissional ainda levar a que a afirmação seja verdade em termos pessoais, a realidade é que para a entidade Gestora dos Fundos, o mais importante é o montante sob gestão, isto porque o comissionamento dos fundos é, regra geral, uma % do montante sob gestão, e mesmo que existam comissões de performance, são irrisórias. Esta é uma das razões pelas quais a Indexação se tornou tão apelativa. A Indexação assegura que nunca existirão erros muito graves, e por isso retira da equação da gestão a variável “performance” (se cair, foi porque caiu o mercado. Se subir, óptimo).

É ainda interessante reparar que, apesar de a performance afectar o montante de fundos sobre gestão (como se pode ver comparando as gestoras nacionais, as performances históricas, e a quota na gestão de fundos, face à cota no sistema bancário), esta não é a variável determinante. A DISTRIBUIÇÃO, e a quota bancária em geral, são determinantes muito mais importantes nos montantes sobre gestão.


Se um papel ficar brutalmente barato, os Gestores de Fundos, profissionais que são, identificam a situação e compram fortemente.

Errado, a Indexação faz com que muitos fundos se limitem EXCLUSIVAMENTE a investir nos títulos que já estão no seu índice de referência. Ora, se um papel estiver brutalmente barato, a sua capitalização pode ser de tal forma baixa que não consegue entrar nesses índices de referência. Resultado, não receberá compras de virtualmente nenhum Gestor de Fundos (existem excepções a esta afirmação ...).

Já devem ter ouvido a razão para não comprar porque a “capitalização é demasiado pequena”. Pois bem, essa é a razão mais estúpida à face da terra, pois sendo a Capitalização = Preço X Nº Acções, e sendo o Nº Acções uma constante, então o que se está efectivamente a dizer é que não se compra porque “preço é demasiado baixo”.

Na mesma linha, quando se fala de não comprar porque a liquidez é demasiado baixa, estamos a esquecer que a liquidez é um fruto das subidas e do interesse, e não uma característica intrínseca do papel.

Há muitas mais ideias erróneas ... ficarão para outra vez.

Autor

Incognitus, em 25/8/2004

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